quarta-feira, 4 de março de 2015

Desfaz o sorriso...

Desfaz o sorriso
não leves a mal,
Dá-me outra coisa,
linda, feia, oca, vazia
superficial...

Acaba com ele
Rasga-o do rosto
Quero olhar-te,
ver-te de novo.
Cabelos nos olhos
Nariz enfiado
Rugas na testa

Barba atrasada
Boca desfeita
Desfeita por mim
Assalto à alma
Desejo sem fim.

Despe o sorriso
Leva-o de ti
Quero os momentos
Do homem que vi...

Afasta os lábios
Sem pensar em nada
Dá-me outro beijo
Segue o impulso
Agarra-te a mim
Esboça um sorriso
......Fim!


Maria Florܓ


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015














"Maçãs Verdes"

Aninho-me aqui, perdida de mim, olhando as estrelas e sentindo
o aroma da saudade.

Aninho-me na ausência das palavras e de abraços e sou
apenas um pedaço de qualquer coisa que não sabe onde deixou
o espaço ou o sentir.

Abandono-me aos orvalhos soltos da noite que me escureceu os beijos
e não procuro as salivas que ficaram nos cantos da boca porque não
lembro mais o sabor.

Atravesso a língua no deserto dos meus lábios para que não gritem
as palavras que proferir, ao viajar pelos jardins de margaridas
já sem o branco das pétalas e murchas pelo cansaço. 


Não fora este aroma das maçãs verdes que se desprende da chuva
e não aguentaria o terror do silêncio que me prende o respirar ao
longo do caminho em busca do amanhecer.

Gritaria se não temesse o eco no retorno da solidão!


Permaneço apenas, mas não quero sentir o reflexo dos sonhos mortos
e o cheiro putrefato das flores acumuladas...

Quero apenas um chão verde onde o meu corpo possa vestir o contraste
e não sinta mais nada.


Maria Florܓ

Às vezes (só às vezes) lembro-me…


Onde andam as minhas palavras?
Aquelas palavras que procriavam as minhas,
o fluido que me apaga a sede,
o vento que me eleva as asas,
onde se camufla a minha sombra?

Olho o horizonte e antevejo um vazio glacial,
nuvens oprimidas que deslizam no silêncio,
esculturas isoladas,
uma casa caída,
no cimo de um monte,
raiada de sol,
esperando visita...

Maria Florܓ



"Amor Estranho"

Amor estranho amor
contemplativo
olhar perdido 
longe
no mundo das estrelas
a cabeça distante
no mundo da lua
sonhando em te ver
nu 
e
amante


Amor estranho amor
intempestivo
se transforma em flores
ou em sorrisos
para acalmar as dores
ou reacender a chama
da mulher que ama
sempre que for preciso


Amor estranho amor
cativo
naufrago embebido 
no fundo da luz 
dos olhos dele
viajante 
destemido
imagina as paisagens
e o peito 
explode em desejos
todos contidos


Amor estranho amor
covarde
inibido
não alcança
um único beijo
e despenca de volta
ao vazio da solidão



Amor estranho amor
que carrega pra sempre
esse andor
em vão...


Maria Florܓ


domingo, 15 de junho de 2014

"Regresso"

Nesta longa caminhada,
subindo a encosta da vida,
aprendo em cada passada,
a certeza de uma busca perdida.

O corpo cansado dos passos que deu,
a alma pesada pelos séculos que perdeu.
Procuro encontrar o caminho de volta à casa das palavras,
onde deixei escritos e fórmulas, em épocas passadas.

Quero sentar, sobre a velha cadeira,
pousar a minha mão sobre a pena,
deixar nas páginas vazias,
o cheiro da tinta,
com sabor de palavras que carrego.

Quero perder-me a contemplar da janela, 
o luar, e a floresta que desenhei,
sentindo o vento soprar.


Ao meu castelo quero voltar,
por lá deixei os sentidos,
que agora que ando perdida,
preciso encontrar.

Nas noites etéreas em que me sento e descanso,
solto no vento o meu pranto, deixo a alma vagar,
por todo este mar de desencantos.

As telas não desenhadas, campos estéreis,
esperam pela minha mão,
para desenhar sobre elas os traços de ti,
que encontrei espalhados por aí.


Em vidas, outrora vividas,
colhi as histórias,
sentimentos e palavras,
que carrego comigo,
sempre que regresso ao lugar onde
um dia comecei a caminhar,
nesta busca perdida para te encontrar.

Caminhos distantes, lugares recônditos,
gravaram-me na alma o sabor dos instantes,
o gosto de outros seres,
e os pedaços perdidos que de ti fui encontrando
ao longo desta viagem imensa, 
que mais uma vez chega ao fim.


Não existe final sem um novo início,
e amanhã,
quando o Sol me despertar,
recomeçarei de novo a caminhar.

Maria Florܓ