segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Lunário"


[…] no centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar.
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado,
tem a dimensão de um túmulo,
e todos os teus gestos são uma sinalização
em direção à morte […]
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na franja do mar.
Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi.
E uma abelha pousa no azul do lírio,
e na relva que sobreviveu à geada.

Bebo, fumo, mantendo-me atenta, absorta – aqui sentada,
junto à janela fechada.
Te ouço sussurrar “te amo” pela primeira vez,
e na tênue luminosidade que se recolhe
ao horizonte acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria e digo baixinho:
Apague as estrelas, vem dormir comigo no esplendor
da noite do mundo que nos foge.
Silencie e não diga nada,
Apenas adormeça comigo...
*
Maria Flor ჱܓ

Um comentário:

  1. É! Vc realmente leva jeito para a coisa... Outro belo poema.
    Beijo

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Uma Florჱܓ com carinho